março20
Há algum tempo me pediram para escrever sobre redes sociais para adolescentes. A sugestão foi da @schiesse, pelo Twitter, claro. Aqui vou eu, discorrer sobre o que parece simples, mas não é: redes sociais de caráter um tanto quanto “comercial” mesmo se tratando de produtos editoriais. Melhor: empresariais. Afinal, o que era comercial já não é mais, quando está mais relacionado ao editorial, ao conteúdo, do que à empresa. Um breve exemplo: quando um anúncio ou um site apresentam um conteúdo mais bacana do que o próprio produto que vendem; não é mais apenas o marketing complementando a marca, o jornalismo também.
Qual é a relevância das redes sociais de marcas quando existem tantas redes como as representadas na figura abaixo? Ah, sim, e o Orkut (que não está incluindo na listagem global que tirei do Google Images).

Para analisar a questão da relevância das redes sociais focadas nos adolescentes, inicio com um resumo do que existe no mercado da “socialização virtual”. Incluo na enxuta lista apenas as redes de relacionamento mais bacanas e muito bem desenvolvidas, que funcionam com o mesmo intuito da rede social propriamente dita: incluir, interagir, integrar. Ouso dividir essa análise em duas, as redes de relacionamento Editoriais e as Comerciais.
1. REDES SOCIAIS EDITORIAIS?
Começo analisando 3 redes sociais que são produto de conteúdos totalmente editoriais (República Capricho, iCarly e Espin).
República Capricho
Essa é fácil. A revista preferida das adolescentes classe A/B brasileiras tem um site pra lá de original. Mais do que um site, a República Capricho é uma rede com direitos básicos, como virar um avatar e conhecer pessoas, e com direitos um tanto vips, como o acesso aos diversos espaços de uma verdadeira república teen. E tudo muuuito cool. Uma rede social cool e completa em todas as suas seções: das dicas de maquiagem ao raking dos melhores sites (ambos editados tanto pelas jornalistas quanto pelas moradoras da República).
Ao acessar o quarto, por exemplo, você encontra um mural para o desabafo das garotas. Que todos adolescentes adoram desabafar já sabemos. Agora, existe um lugarzinho virtual para eles preencherem o que AMAM e ODEIAM dessa vida tão desafiante, sim (por sinal, acabei de ter uma ideia para um novo post sobre a palavra “desafiante” que, ao meu ver, é a melhor descrição para a fase da adolescência). Fala sério, desafiante é a palavra perfeita! (como diriam os meus leitores). Perfeita pois é o equilíbrio entre a vida que os teens afirmam ser difícil e os pais alegam ser fácil (”o seu único dever é estudar, meu filho”). Muitos esquecem-se de que existem os deveres implícitos e emocionais da época mais – volto a dizer – desafiante de todas.

A página mais cômica do portal da Capricho é a do banheiro, que serve como espaço para as moradoras da República contarem sobre os seus sonhos. Por um momento achei engraçado, noutro concluí ser muito apropriado. Dos meus encontros nas escolas descobri que o segundo lugar onde os teens passam mais tempo é, justamente, o banheiro. Lá eles sentem-se “livres para rir e principalmente chorar”. Nada como o banheiro para deixar qualquer sonho invadir a nossa mente (seja tomando banho ou… bem, como quiser).
Como diversos hotsites e redes sociais de marcas que se tornam network on-line, o portal da Capricho tem duplo endereço, sendo acessado através do site e direto pela URL da República. Não faltam caminhos para levar as garotas à diversão.
http://republica.capricho.abril.com.br/
http://capricho.abril.com.br/home/

iCarly
O iCarly é uma novidade não tão nova que ganhou as páginas da Veja no final do ano. É ambos um programa de televisão e um blog-quase-rede-social, pois os leitores acessam, participam, mas não criam perfis mais complexos (a assinatura da participação consiste apenas no nome/email/site do participante, nada de outras firulas). A proposta do iCarly é ser um YouTube feito para os tweens (pré-adolescentes, 11-13) e produzidos pelos mesmos. Através dos chamados WebShows, os leitores são convidados a criarem vídeos curiosos ou criativos (sobre qualquer tema) e publicarem on-line. Apenas os mais bacaninhas são publicados no site para serem compartilhados por todos. Torna-se uma competição saudável por se tratar de uma produção de conteúdo ingênua, típica da faixa etária, mas que motiva a criação pessoal.
Entenda o que estou falando (e como é a ideia de criar um WebShow):
http://icarly.uol.com.br/iVideo/index.html#vid5813
Bem, mas é bastante complicado falarmos de projetos virtuais que são adaptados para a nossa realidade e continuam muito mais americanizados do Norte do que do Sul. Posso afirmar que o iCarly é sucesso, sim: entrevistei uma amostra de 12 tweens durante um grupo focal em outubro passado e todas curtiram o programa que é transmitido na Nickelodeon. A pequena amostra provou que na tevê o programa conquistou a audiência das garotas e garotos. É o hit do público tween. No entanto, o que acontece com o hotsite é bem diferente do que a realidade do mesmo nos Estados Unidos. No site americano, o iCarly na internet é superacessado e arrisco contabilizar 5X mais do que o iCarly na versão brasileira. O número de posts quintuplica e a participação com o envio de vídeos idem.

Por enquanto o iCarly on-line me parece uma extensão do conteúdo televisivo e não o mantenedor de audiência. É consequencia e não causa, como acontece nos EUA. Confira o hotsite e veja se algum insight pode sair de lá para criar um mais inteligente que o deles:
http://icarly.uol.com.br/
Espin.com
Conheço pouco da rede de relacionamento chamada Espin. Mas o que vi on-line já é o suficiente para escrever breves linhas. Um orkut só de adolescentes. Como eles monitoram a faixa etária para garantirem a entrada unicamente de jovens? Bem, não vem ao caso, a internet é aberta a todos, e a identificação é a chave de entrada (todos podem entrar, mas permanece quem faz parte, ou é excluído – me parece que o mesmo acontece na vida off-line, não é mesmo?). Apesar da faixa etária a qual eles se propõe (você pode preencher a idade de 16-35 anos), o Espin tem um slogan bem mais teen do que o número que apresenta. Um slogan simples e que diz tudo “Teen chat, quizzes, good times”. Não tem versão em português, mas pelo número de acessos é um tanto popular nos Estados Unidos (os teens de lá parecem muito mais conectados do que os nossos, pois participam de tudo e com frequencia muito maior!). Vale conferir o site:
http://www.espin.com/

2. REDES SOCIAIS COMERCIAIS?
Dentre as redes de relacionamento marketing oriented (ou seja, que partem de um produto não-editorial), tem duas que destaco agora.
O Rexona Teens e o Intimus iTeen.
Rexona Teen
Mais focado para os teens do que para os tweens, essa rede posiciona-se como “O lifestream mais divertido da internet”. Eu, no entanto, vejo pouco do formato rede social e mais de um blog (com nome refinado). Até comparo com o formato do iCarly: alguns blogueiros postando conteúdo e poucos leitores editando-os também. O interessante do Rexona Teens é que ele elege um determinado número de Protagonistas (as blogueiras) da temporada, que editam o conteúdo em diversos canais (no hotsite, no YouTube, Flickr, Orkut e Twitter). Essas Protagonistas mudam a toda hora (como as conselheiras do clube da Capricho). Além do aspecto volátil do site, que permite diferentes meninas se tornarem editoras, o conteúdo editorial é bem cult. É um site fashion e, para falar com os teens (mais do que com os tweens) é imprescindível ser cult, ainda mais do que cool. Tem que lançar tendência e ser “hypado”, entendeu? (se não, repare na foto abaixo, extraídas de uma matéria do site):

Ah, vale destacar a importância de fugir da temática do produto em si (no caso, desodorantes) e buscar assuntos pertinentes. Parece óbvio que no mínimo uma rede social (ou seus formatos simplificados como blogs e hotsites) devam ter conteúdo relevante. Mas o que se vê por aí é um conteúdo limitado e pouco criativo. É necessário expandir as informações: a tal extensão de linha, que no marketing do Kotler não funciona muito bem na gôndola de supermercado, na internet é fundamental.
http://www.rexonateens.com.br/site/home/
iTeen
Aqui, a chamada do hotsite (se fosse um jornal, eu diria manchete), é um tanto ousada: “Seja bem-vinda ao maravilhoso mundo da menstrução”. Até me pareceu bizarro, mas depois o tom divertido do hotsite conquista (um pouco e talvez apenas porque passei da fase em que tudo acontece pela primeira vez). Não é uma rede social propriamente dita, mas um blog. O legal é a oportunidade das meninas cadastrarem os seus blogs e formarem, então, o início de uma rede. Tem concurso (fórmula que sempre atrai) e diversas explicações sobre a tal da palavrinha que começa com M (M de menstruação e de maldita). A forma está redondinha: layout superbonito, diagramação inteligente, bem melhor do que a do Rexona (onde é mais fácil nos perdermos). Mas penso que o site peca pelo conteúdo: muito mais relacionado ao produto do que ao universo teen. Se a prioridade é venda e comercial, beleza. Para isso, no entanto, eu dispensaria o formato blog. Se é estreitar o relacionamento com os consumidores, falta incluir bastante coisa ali.
http://www.intimus.com.br/iteen/#/home

(Detalhe no texto da imagem acima: eles realmente falam no Maravilhoso Mundo da Menstruação)
É ISSO AÍ
Na discussão de como usar as redes sociais a definição do público-alvo parece-me ser o primeiro passo. E é claro que o público adolescente é o mais sujeito a participar delas, afinal eles ainda têm tempo livre maior (cada vez menor), são multifunção (podem abrir 5 redes sociais e falar com 10 amigos por rede, ao mesmo tempo) e, o principal, buscam incessantemente a socialização.
Ainda assim, apesar dos aspectos prós, a rede social “comercial” propriamente dita é uma faca de dois gumes, para ser coloquialmente brasileira. Vejam só:
1. Ou as marcas propõem-se a arrasar e desenvolver uma rede social com atualização de conteúdo diário e constante (lembrando que esse conteúdo deve ser relevante e, até certo ponto, original)
2. Ou as marcas investem num site (que tem suas funções bem claras) e não se arriscam com blogs intermináveis e abandonados (que transmitem o efeito contrário quando você clica neles e vê o número zero postado na seção comentários).
A primeira imagem desse post mostrou um número resumido de redes sociais. Mesmo assim, já são inúmeras: por que os adolescentes vão buscar ainda mais?
Essa é uma pergunta cruel e que gera muitas outras. Antes de investir num supersite, portanto, é legal buscar argumentos capazes de respondê-la.
PRA TERMINAR, UMA NOVIDADE
Ufa! Demorei para postar aqui novamente, mas agora que o fiz, escrevi demais (vício de escritora de livro de papel). Nas próximas vou criar textos em forma de pílula, ou fico muito tempo sem aparecer. E, agora que quero vender minhas ideias, preciso aparecer mais, claro. É isso mesmo: estou lançando o Dossiê JJ. Uma copilação de conteúdo que soma minha análise exploratória (observação em campo do comportamento jovem durante meus inúmeros momentos de contato com eles) e uma análise quantitativa (através do questionário virtual que os jovens vão responder durante minhas palestras nas escolas, feiras e livrarias). Já comprei o netbook, agora é passá-lo de mão em mão para os meus queridos – e divertidos – ouvintes teens.